
HISTÓRIA DA CIDADE
HISTÓRIA DOS PRIMEIROS HABITANTES
Para entendermos a história de Guarulhos plenamente, temos de investigar quem eram os povos que habitaram o território antes da chegada dos invasores europeus. Desde sempre o território que hoje chamamos Guarulhos, foi espaço de transição. Constituído de várias características como: região montanhosa, vales e abundância de rios atraía a atenção de várias tribos itinerantes ou sedentárias.
Há muita controvérsia sobre qual tribo deu origem ao aldeamento, que por fim tornou-se a cidade de Guarulhos. A versão tradicional aponta para índios de origem guainá barrigudos que viviam a margem do rio Tietê (antigo Anhemby). Os colonizadores encontrando semelhança com um peixe abundante no Tietê e catalogado como guaru ou guaru-guaru, pequeno, barrigudinho, escolheram para denominar essa tribo como Guarus, posteriormente Guarulhos.
Outra versão para explicar qual povo foi o fundador é linguística, derivada de os índios serem trazidos de outros locais para o aldeamento de Nossa Senhora da Conceição, recebendo assim o nome de ‘Gu-arú-bo’, que significa trazidos, composto de gu (recíproco), arú (trazer) e bo (breve). Mais tarde ‘corrompido’ como Guarulhos, pois não existe na língua tupi-guarani a letra L e o dígrafo LH. (RANALI, 2002, p. 28)
Essa hipótese pode ser considerada devido a um possível elevado número de índios trazidos para trabalhar nas lavras de ouro, iniciadas em Guarulhos desde o século XVI, conforme veremos mais adiante.
É certo que existiam índios agricultores que construíam suas aldeias próximas aos grandes rios ou aos seus afluentes e enterravam seus mortos dentro de urnas funerárias (grandes vasos cerâmicos). Eles eram o que costumamos chamar de povos sedentários, horticultores e ceramistas. Nas margens do rio Anhemby (atual Tietê) foram encontradas urnas, nos anos 1950, perto do bairro atual da Ponte Grande que confirma a existência desses povos em território guarulhense. (NORONHA, 1960, p. 17)
Outro vestígio arqueológico na Penha, próximo ao rio Tietê e vizinho a Guarulhos, nos anos de 1920 (nota sobre o achado de uma urna funerária publicada pelo historiador Afonso de Freitas, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, quando da abertura de uma vala para instalação de canos no cruzamento de duas ruas.) e 2005, (por ocasião de uma escavação da SABESP, para implantação de um ponto de água na calçada de uma rua, próxima ao cruzamento onde havia sido achada a urna em 1920.)
Essas evidências indicam que as marginais do Anhemby eram povoadas de indígenas. Potenciais sítios arqueológicos que podem ajudar a entender os povos que viveram antes da chegada dos europeus. É importante que todos proprietários locais e poder público fiquem atentos a qualquer escavação, que são potencialmente reveladoras da pré-história paulista e guarulhense. É preciso deixar claro que ter um terreno ou propriedade em cima de um sitio arqueológico, não implica em perder a propriedade, mas se houver um trabalho no subsolo deverá ocorrer à pesquisa arqueológica antes da construção.
Corroborando com esses indícios a historiografia aponta que os tupis Tibiriçá, Caiubi fizeram aliança com os jesuítas para edificação do povoado que seria chamado de São Paulo, mas seu irmão
Piquerobi maioral indígena de Ururai, que abrangia as terras do atual bairro de Penha, São Miguel e parte de Guarulhos, se opôs indo fazer guerra contra essa aliança, o que indica a presença dessa etnia também na parte leste do território guarulhense (MONTEIRO, 1994, p. ??)
Pesquisas arqueológicas na capela de São Miguel (conhecida como igreja dos índios, construída em 1622 e um dos primeiros núcleos de colonização de São Paulo) nos dão evidencias da variedade de indígenas que habitaram nesta região. Na porta e na janela do anexo à capela lateral destacam-se carrancas entalhadas com traçados de povos andinos, provavelmente incas. Tais carrancas costumavam ser usadas por esses povos para ornar a entrada das moradias, como forma de espantar os maus espíritos. Chama a atenção o fato de não apresentarem qualquer semelhança com entalhes e figuras do gênero produzidas pelos nativos brasileiros, sugerindo a presença, em São Miguel, de índios capturados por sertanistas na América espanhola. (FIGURA DA CARRANCA)
Outra evidencia é a descoberta de pinturas murais localizadas atrás dos altares laterais, além de muito raras, revelam uma série de características ainda pouco conhecidas na "arte brasileira". Provavelmente são as pinturas mais antigas do País, e fortalecem a hipótese de índios de outras regiões da América do Sul terem habitado esta região de São Paulo.
Existiram também os Maromomi, (não tupis, da família tronco linguístico Macro-Je, da família Puri) foram para a Serra da Mantiqueira, em regiões onde havia pinhão e nozes de sapucaia e outras fontes de alimentação. Significativa foi a presença desses índios na Mantiqueira, a ponto de durante um bom tempo ser chamada de Montes-Guarimunis ou Marumininis, como relata o aventureiro holandês Wilheim Glimmer, que participou de uma expedição em busca de mina de ouro, nesta região, em 1601 (In: RIHGSP, v. 6, 1900-1901, p. 232).
Os jesuítas, que conviveram com eles, assim os descrevem: "Andavam de mato em mato, caçando, colhendo frutas e mel silvestre, que abundam nessas montanhas" (Vasconcelos, [1672] 1943, v. 1, p. 193). Por serem coletores, não tinham roças. Não construíam casas, mas simples abrigos, dormiam "no chão, ou quando muito sobre folhas de árvores e se contentavam por ter os pés voltados para o fogo".(RODRIGUES, 1599. In: HCJB, id. ib.)
Nos relatórios, públicos ou institucionais, foram grafados de diversas maneiras como Maromomi, Maromemim, Maramomi, Jeromomim, Garumimim e Garomemim. No Rio de Janeiro foram conhecidos como Guarulho e Gessaruçu. Não praticavam a antropofagia, sendo um povo esportivo, como relata o Pe. Jácome Monteiro, que esteve com eles em São Paulo, em 1610: "Têm muitos e mui vários jogos, os quais realizam em terreiros abertos, ganhando e perdendo arcos e outras coisas que usam. Neste assunto são os únicos, pois nenhum indígena dá importância para jogo algum" (In: HCJB, apênd., v. 8, 1949, p. 395).
Quanto ao idioma, "têm muita variedade de língua", escrevia o Pe. Rodrigues, o que mostra as diferenças dialetais. Quando o Pe. Jácome passou pelo aldeamento de Guarulhos, em 1610, anotou em seu relatório: "Falam com muita pressa, e na pronunciação se parecem com os espanhóis. A linguagem que usam é muito dificultosa: não há como entendê-los" (In: HCJB, apênd., 1949, v. 8, p. 396).
Portanto as pesquisas realizadas até o momento indicam que em Guarulhos existiam diversas tribos, de etnias diferentes: os sedentários, agricultores e produtores de cerâmica e os nômades, caçadores, coletores esportistas. Muita coisa poderá ser revelada sobre essas populações, se houver um estudo arqueológico nas intervenções no solo, seja por questões urbanísticas ou com intenções específicas de investigação do passado. (INCLUIR MAPA DO GTH p. 75)
HISTÓRIA COLONIAL
O primeiro registro conhecido que fala sobre o aldeamento dos índios que povoariam o local batizado por Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos é o de uma reunião dos camaristas de São Paulo, em 1608, conforme reproduziremos parcialmente:
(...) A notícia lhe era vindo que os moradores e vizinhos desta vila faziam muitas avexações [mau tratos] aos maramomis indo às suas aldeias contra os mandados e penas que sobre isso eram lançados, e lhes tomavam suas filhas e filhos contra suas vontades e outros agravos [abusos] de que eles se queixavam e, outrossim, algumas pessoas vinham a esta vila se apoderavam de índios que pelo caminho achavam aposentados [aldeados] como sejam ao longo desse rio Anhembi o que era em muito prejuízo desta terra (...) porque se tornassem a levantar seria muita perda desta capitania, como é notório pelo que lhes requeria em nome deste povo mandassem prover nisso. (ACSP, sessão de 5.10. 1608, v. 2, p. 222 e 223).
Essa informação sobre a fundação tardia do aldeamento de Guarulhos, esta de acordo com a assertiva de Benedito Prezia de que "os jesuítas só foram ter aldeamentos missionários próprios no planalto em 1584, como se vê por ocasião da passagem do visitador" (CARDIM, [1625]1978, p.213). As primeiras missões só aparecem no catálogo dos jesuítas no ano de 1586 (HCJB, T. 6, l. 4, c. 1, p. 500).
Essas informações oficiais indicam que o aldeamento de Conceição dos Guarulhos só surgiu após o ano de 1586. A informação de Azevedo Marques, que indica a fundação do aldeamento em 1560 (AHGPSP, p. 308) e pesquisas posteriores realizadas pelos historiadores locais usando esse autor como base, induziu ao erro, inclusive com respeito ao Padre Manoel de Paiva como fundador (RANALI, 1985, p. 24; 31-34; ROMÃO & NORONHA, 1980, p. 24-26).
Portanto é controversa, a data e o padre jesuíta que implantou o aldeamento de Conceição dos Guarulhos. Pesquisas iniciais apontavam os nomes dos padres João Álvares (paulista que supostamente erigiu a primeira capela em Guarulhos), Manoel de Paiva (parente de João Ramalho conhecido maioral e pioneiro europeu entre os índios) e Manoel Viegas (que teve um estreito contato com os Maromomis, criando um dicionário da língua, hoje perdido) como possíveis fundadores. Em 1983, a Câmara Municipal votou a Lei nº. 2.789/83, oficializando o nome do padre Manoel de Paiva como o fundador de Guarulhos.
Cartas de dom Pero Fernandes Sardinha, de 1552, as dos padres Manoel da Nóbrega e Anchieta, nos dois anos seguintes, citam descobertas nas regiões do Jaraguá, de Pirapora do Bom Jesus, Sorocaba e Guarulhos, aproximadamente, meio século antes da criação do Regimento das Terras Mineiras do Estado do Brasil, em 1603, pela coroa lusitana. (PINHEIRO in OMAR, 2008, p. 78)
Relatos oficiais sobre a descoberta de ouro nas terras de Guarulhos, na Serra do Jaguamimbaba, em 1597, atribuído a Afonso Sardinha, o velho; e a carta de terras de sesmaria dada pelo capitão Gaspar Conqueiro, aos 19 dias do mês de setembro de 1611 a Geraldo Corrêa Sardinha (nada indica que eles eram parentes) que descobrira ouro de aluvião no rio Maquirobu (Baquirivu) estabelecendo aí um garimpo que levou seu nome (FRANCO, 1954, p. 360), indicam que a formação do povoado de Conceição ocorreu mais tarde.
As exigências cada vez maiores de solicitação de trabalho para atender as lavras, demandaram um crescente conflito entre paulistas e jesuítas por mão de obra. Uma ata da Câmara de São Paulo faz alusão a esse assédio, como se vê numa reclamação de Diogo de Quadros, (técnico em metalurgia, enviado pelo rei de Portugal para montar fornos para fundição de ferro) que se queixava da falta de mão-de-obra:
(...) de um ano a esta parte até hoje não tivera das aldeias mais que oito índios que lhe dera Antônio Roiz, capitão dos marmemis, dois índios em 9 de julho e 5 de agosto da aldeia dos índios marmemis que lhe fizeram três arrobas de carvão pela qual razão deixou de fazer quantidade de ferro. (ACSP, sessão de 15.02.1609, v. 2, p. 234-235).
A versão histórica mais aceita é que os índios eram a totalidade de mão de obra escrava até o século XVIII. Porém é preciso considerar que os Guaruminis eram um povo caçador, coletor e adeptos a jogos, o que os distinguia de outros índios, com esse tipo de vida e cultura não eram os indicados para esse tipo de trabalho escravo, onde se fica parado e de pé até 12 horas. (PREZIA in OMAR, 2008, p. 60)
Taunay nos informa, porém, que nos anos quinhentistas, "Afonso Sardinha era possuidor de um navio na carreira de Angola", reforçando a hipótese de haver escravos negros ou "tapanhunos", como eram chamados nas minas em São Paulo, apesar de seu preço elevado ser em média de cinqüenta mil réis. (2004, p. 99)
Para acrescentar, é importante lembrar que entre meados e fim do século XVII houve um movimento para construção de uma grande igreja católica, Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que atenderia à população negra em Guarulhos, indicando que essa população não era pequena à época e, em tese, uma das fontes de mão-de-obra para as minas auríferas e outros setores produtivos.
Desde cedo na história, por motivo desconhecido, a capela da missão tornou-se local de romaria, como se relatado na sessão da Câmara do dia 12 de agosto de 1623, que se refere a "um caminho real antigo pelo qual se serve o gentio de paz Guaramimins e gente moradora desta vila que vai tratar com eles e a romaria a Nossa Senhora da Conceição" (ACSP, v. 2, p. 230).
O local onde foi erguida a primeira capela é incerto, os documentos indicam que era próximo ao rio Anhemby (Tietê) e diferente do local atual. Segundo o registro feito pelo padre visitador, Antonio Medeiros de Camargo, em 17/07/1757, a primitiva capela estava erguida na paragem chamada de Eperê, pelos índios. (RANALI, 1980, p. 25)
Outra referencia a localização é que ela distava a cerca de três léguas do colégio de São Paulo, o que exclui, nessa versão, a possibilidade da primitiva capela se localizar na Fazenda do Bananal, no pé da Serra da Cantareira, local das primeiras minerações, como aventou Ranali. Um outro local é apontado pelos historiadores com base no relato de José Esperança da Conceição, juiz de paz, 1º delegado e procurador da Câmara que aponta o local da primitiva capela sendo na avenida Guarulhos (antiga estrada da Conceição) com a Silvestre Vasconcelos Calmon, num dos pátios da antiga garagem de ônibus de Guarulhos. (ibidem, p. 25)
No primeiro século da ocupação a escravidão dos índios evoluiu de maneira lenta, com a concentração da população e a avidez por riquezas ligada a mineração, a demanda por mão de obra aumentou, estimulado por D. Francisco de Souza no começo dos anos 1600, que criou a capitania do sul, em busca de ouro em S. Paulo. A busca por índios foi estimulada para o trabalho nas minas e nas propriedades rurais. As roças inicialmente eram de milho e mandioca. Com o passar do tempo, muitas terras localizadas ao longo do rio Juqueri foram usadas para o cultivo do trigo, servindo como uma espécie de ‘celeiro do Brasil’, nos dizeres de John Manuel Monteiro.
Devemos lembrar que o projeto colonial envolvia um sistema de produção que visava criar excedentes agrícolas e extrativistas usando as disponíveis terras em abundancia com os escravos tanto indígenas (através da obtenção por guerra justa) como africana.
(...) A resistência obstinada dos índios do planalto, a oposição persistente dos jesuítas, a posição ambígua da Coroa quanto a questão indígena: todos fatores que dificultavam o acesso dos colonos à mão de obra indígena. Aos poucos e de forma meticulosa, os colonos enfrentaram e superaram estes empecilhos, articulando paulatinamente um elaborado sistema de produção calcado na servidão indígena. Ainda no século XVI, derrubou-se o primeiro obstáculo, com a dizimação da população tupiniquim e o afastamento dos Guaianá e guarulhos.(Monteiro, 1999, pp.129, 130)
Segundo pesquisas realizadas por Monteiro o auge da produção de trigo em São Paulo ocorreu entre 1630-80, período que correspondeu a captura de índios e a criação das fazendas de grande extensão, devido a concessão das sesmarias entre 1617 e 1639. (1999, pp.113, 114). Nessa corrida por terras surgem grandes proprietários, em Guarulhos podemos citar os Almeida Barbosa, Siqueira Buenos, Castros, Ramos, Veigas, Pires de Freitas. A ganância era tanta que os Pires e Camargos se digladiavam, sendo uma das razões desse grande conflito famoso, a obtenção de terras no bairro de Tremembé. Aliados aos Buenos os Camargos conseguiram vencer os Pires na década de 1650.
Esse espírito ganancioso potencializou os conflitos nessa época, devemos lembrar a aclamação de Amador Bueno da Ribeira, ocorrida em abril de 1641. Para entender esse movimento é preciso contextualizar a história da metrópole. Nessa mesma época Portugal conseguiu se libertar do domínio espanhol (conhecida como União Ibérica). Os paulistas, principalmente de origem espanhola, viram ameaçados os seus negócios, (aprisionamento e venda do índio, bem como o comércio livre com a região do rio da Prata) resolveram criar em São Paulo um reino independente e aclamaram o rico fazendeiro, capitão-mor e ouvidor Amador Bueno da Ribeira, que rejeitou a proposta.
Conflitos relacionados a mão de obra indígena eram frequentes entre paulistas e jesuítas, resultando na expulsão dos jesuítas de São Paulo em 1640, pelos paulistas e mais tarde pelo marques de Pombal. Em Guarulhos, segundo tradições orais, os jesuítas abandonaram livros escritos em latim, que ficaram na guarda da família de Zeferino Pires de Freitas, sendo esses livros extraviados no inicio do século XX (NORONHA, 1980, pp. 40-42)
Nesse contexto os indios não permaneceram submissos,
houve resistência. Na década de 1650 eclodiram rebeliões e conflitos que atingiram em cheio a estabilidade social. Além de uma revolta no bairro de Juqueri em 1652 na propriedade de Antonio Pedroso de Barros que possuía quase 600 índios recém escravizados. No mesmo ano houve outra rebelião, desta vez de menor porte, próximo ao aldeamento de Conceição dos Guarulhos:(...) Na ocasião, alguns guarulhos rebelaram-se, matando João Sutil de Oliveira e sua mulher Maria Ribeiro, que, pouco antes, haviam estabelecido uma propriedade rural com 59 trabalhadores indígenas. Também neste caso, as causas da rebelião permaneceram obscuras, porém o inventário do casal morto na revolta oferece algumas pistas. Tendo ocorrido justamente na época em que os colonos começavam a espoliar as terras do aldeamento, transferindo seus residentes para a força de trabalho das propriedades coloniais, o que certamente acarretou conflitos, a revolta em questão se apresentaria como uma resposta a esta situação. (MONTEIRO, 1999, p.178)
A partir dos anos setecentos intensifica-se a escravidão e comércio do negro africano, principalmente relacionado como mercadoria preciosa para as minas, além disso, colaborou para que São Paulo obtivesse um caráter de entreposto comercial.
Esses escravos foram usados também nas muitas propriedades que possuíam engenhos de cana que produziam cachaça, conforme relatam os documentos oficiais e pesquisas feitas por antigos historiadores.
Ao contrário do que é comumente dito, a antiga Conceição dos Guarulhos, do mesmo modo que São Paulo, existiam propriedades que produziam cana de açúcar, trigo, hortaliças, leguminosas, entre outras. Conforme levantamento feito por Noronha na década de 1950 sobre os tipos de solo existentes em Guarulhos há margem para esse tipo de produção:
Há pelo menos três tipos de solo, no município. Um, caracterizado pelas grandes baixadas férteis, ricas em humo proveniente da decomposição do chamado capim de colchão, de cor preta, fofo, ricamente umedecido, solo ideal para chácaras. Outro, pelas terras altas, montanhosas, de padrão muito variados, secas, argilosas, tendendo para um tipo inferior de massapé. Estas, em muito maior porcentagem que aquelas, asseguram as reservas de matas e cultura de eucaliptos. Como tipo intermediário de solo, encontramos uma formação de terra amarela, mais solta que está última, e própria para culturas várias, especialmente a batatinha e frutas em geral. Apenas 20 % do solo guarulhense é cultivado, especialmente as baixadas, onde se localizam centenas de chácaras e hortas. (NORONHA, 1960, p. 91)
Era considerável a produção agrícola em Guarulhos a ponto de em 1960 Noronha fazer a seguinte afirmação: (...) é respeitável a produção agrícola em Guarulhos, especialmente a de legumes, a maior da América do Sul. Predomina a policultura. Japoneses e portuguêses formam a grande parte dos agricultores desta comunidade, cuja técnica de produção é muito evoluída. (ibidem, p. 101) negrito nosso.
Para o professor e historiador Carlos José, sobre a produção guarulhense, nos informa:
(...) A principal característica da lavoura municipal era abastecer a cidade de São Paulo. Com entusiasmo, os relatos oficiais municipais destacavam que o município ‘gozava da primazia de ser o grande abastecedor’ da Capital. A produção pecuária também sempre ocupou uma posição secundária no orçamento local. Uma demonstração disso é que o ‘Matadouro Municipal’ foi criado somente a partir da lei municipal nº 76, de 15 de fevereiro de 1928 com uma matança diária prevista de 20 bovinos. (...) não representava também um setor produtivo que oferecesse um desenvolvimento econômico local. Com a produção voltada para São Paulo, essa industria primária produzia tijolos, telhas, cerâmicas e extração de areia, pedregulho, cal, madeira e lenha. (2006, pp.103-106)
Esses estudos indicam que essa região do estado de São Paulo, nos séculos XVII a XIX, constituiu-se em o ‘celeiro do Brasil’ usando as palavras do historiador e professor da Unicamp, John Manuel Monteiro. E posteriormente, no século XX, quando São Paulo se industrializava, Guarulhos assumiu essa posição em relação a São Paulo.
Outra atividade importante estava relacionada às atividades extrativistas, como a produção de tijolos e telhas e a consequente extração de madeira para confecção do mesmo. Houve também a extração de areia nos conhecidos portos a margens do rio Tietê.
A demanda de tijolos e telhas por parte de São Paulo fez o consumo aumentar, utilizados na construção de industriais, vilas operárias, pontes, igrejas, prédios, moradias, entre outros, concorreu para o aumento no número de olarias e até na construção de uma fábrica em Guarulhos, em 1915, de propriedade da Companhia Agrícola e Industrial de Guarulhos, as margens do rio cabuçu na Vila Galvão. (IMAGEM DA FÁBRICA)
No bairro da Ponte Grande surgiram portos, que escoavam a produção de tijolos e areia, pelo rio Tietê para a cidade de São Paulo. Este processo atraiu imigrantes europeus e orientais que contribuíram para mudança na cidade de Guarulhos como, a formação das primeiras indústrias, o salário como forma de remuneração do trabalho e o surgimento dos primeiros operários urbanos. (IMAGEM DA PONTE GRANDE E OS PORTOS)
Com a implantação do abastecimento de água encanada para São Paulo através do complexo da Cantareira, para transportar materiais de construção para as represas e o aqueduto, foi construído em 1894, o tramway da Cantareira, o conhecido ‘trenzinho da Cantareira’ o imortalizado ‘trem das onze’ de Adoniram Barbosa. Mais tarde em 1915, inaugurou-se o ramal ferroviário, Guapira – Guarulhos.
Uma das represas construídas no complexo Cantareira foi a barragem da represa do Cabuçu em 1908, a primeira grande obra de concreto armado do Brasil, o cimento usado na construção veio da Inglaterra em barris de madeira, transportado pelo trenzinho da Cantareira até São Paulo e posteriormente ao Cabuçu em lombos de burro e carros de boi. (IMAGEM DA REPRESA)
Nesse período os barcos do rio Tietê e o Trem da Cantareira foram os principais meios de transportes de mercadorias e passageiros de Guarulhos a São Paulo. Em Guarulhos chegou a existir seis estações e uma parada do trem: Vila Galvão, Torres Tibagy, Gopoúva, Vila Augusta, Parada Sorocabanos, Estação Guarulhos (praça IV Centenário) e Base Aérea de São Paulo, em Cumbica. Toda essa atividade atraiu a atenção de imigrantes europeus, e mais tarde orientais:
Em 1934, existia oficialmente mais de 50 olarias em Guarulhos, entre seus proprietários constam as famílias: Testai, Romano, Zamataro, Bonanata, de Ricio, Faccini, Lombardi, Fanganielo, Vilano, Camisoti, Delbúcio, Mandoti, Calegari, Mignela, Fantazini, Martelo e Demari. Há vinte anos (1936), a economia guarulhense não se explicava senão através da produção de tijolos. Lembro-me de que meu pai, quase pioneiro no ramo da panificação, assemelhava-se a um habitante egípcio das margens do rio Nilo. O seu bem-estar e de sua família se ligavam, estreitamente, à maior ou à menor enchente do rio Tietê. Quando o rio transbordava em demasia as olarias paravam de produzir. O pão ficava sobrando nos cestos e as cadernetas de fiado aumentavam-lhe a aflição. (Fonte: Boletim do Rotary Club de Guarulhos – Amizade (1956) entrevista de Mario Boari Tamassia).
Nesse ambiente, ainda rural, o comércio ganhou mais espaço e notamos nas atas da câmara de Guarulhos um incremento nas petições para abertura de diversos tipos de comércio, ligados as atividades acima relacionadas e aforamento (transferência) de terras. Não obstante a construções de estradas modificaria consideravelmente o perfil de parte do território da cidade.